História  

A freguesia de Sabariz apresenta ainda hoje vários vestígios da influência romana, nomeadamente a nível das vias de comunicação. Mas a ocupação humana do seu território terá ocorrido já desde a Idade do Bronze, ou seja o II milénio antes da nossa era. É pelo menos essa a indicação que nos é deixada pelas cerâmicas da Idade do Bronze encontradas «no Lugar da Igreja, em Sabariz, com cota média de 60 metros»(1).

Há ainda vestígios de actividade precedentes à era cristã na exploração de ouro na Praça de Caboucos, cuja área de monte irregular está ainda hoje envolta em diversas lendas populares. Já o nome da localidade de Sabariz aparece referenciado em documentos do ano 960 («… Villar de Savaraz» - D.C., nº 8). O nome geográfico Sabariz é o genitivo de um nome pessoal de grande uso mediévico: 'Sabaricus'.

Este nome é romano. Só depois evoluiu para o nome de 'Sabarigo'. Embora o termo definitivo de Sabariz nasça da influência germânica, é um nome ainda hoje usado em Itália. A paróquia de Sabariz tem uma instituição que precede também o séc. XI, atendendo a documentos que referem a doação de propriedades à Sé de Braga, que já possuía aqui outros bens. A Sé bracarense possuía em Sabariz haveres, alguns doados em 1078 ao bispo D. Pedro, por Froila Crescóniz. No território actual da freguesia, havia igualmente terrenos da família da estirpe «da Nóbrega». A 'villa' de Sabariz aparece referenciada também em 1099, quando o pai de D. Paio Froiaz doou as suas partes do couto à Sé primacial de Braga.

As terras das redondezas da igreja pertenciam também à Sé de Braga, pois a coroa não tinha nelas quaisquer direitos em 1258. Segundo as Inquirições de 1290 (inquérito ao estado dos direitos do Rei), era um couto que compunha o julgado medieval de Regalados. Pertenceu à comarca de Regalados até à extinção deste (a 24 de Outubro de 1855, quando passou a integrar no concelho de Vila Verde). Por volta do ano 1258 a freguesia terá ganho os seus actuais contornos, quando a Igreja pôde juntar às suas propriedades as terras doadas pela estirpe «da Nóbrega», muito influente após a queda do rei D. Sancho II (1209-1248). A doação foi feita em favor da irmandade beneditina do Mosteiro de Santo André de Rendufe. Até então, era senhor do couto de Sabariz um D. Ourigo, que foi o pai de D. Ourigo Ourigues «da Nóbrega», cha¬mado «o Velho», o qual consta ter feito o castelo da Nóbrega a D. Afonso Henriques, que passou, depois, de infanção a rico-homem, a fim de poder administrar a «terra» da Nóbrega.

Foram os seus descendentes que passaram depois o couto de Sabariz ao convento de Rendufe – o que aconteceu por volta do ano 1258. Em troca, os monges de Rendufe deram aos senhores de Sabariz certos bens importantes na região de Braga. Como couto do Mosteiro de Rendufe, Sabariz era administrada por um juiz eleito por votos, constituindo-se como um couto não dependente do rei. Nas inquirições de 1258 lê-se, sobre Sabariz, que «esta collatione (sc. Sancti Jacobi de Savariz) é couto per padrões, e o trage o moesteiro de Randufi, et non fazem nen uno foro al Rey». Já em pleno século XVIII, a igreja paroquial de Sabariz encontrava-se no local actual. Também a arquitectura e a forma do templo católico eram muito semelhantes às actuais., apesar do grande incêndio ocorrido em 24 de Abril de 1967 e que obrigou à reconstrução da igreja. Nas memórias paroquiais de 1758 (num levantamento nacional solicitado pelo Marquês do Pombal a todos os bispos), o então pároco de Sabariz – Diogo Pereira – explicava que a igreja se situava no meio da freguesia. O sacerdote descreveu que a igreja de Sabariz continha três altares. O altar-mor situava-se à cabeça e ao centro do templo, tendo ao lado o padroeiro, Santiago.

Abaixo do arco interior do templo, ficavam dois altares laterais: um com Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana; outro com S. Caetano, S. Sebastião e o Menino Deus. Nessa altura, a freguesia contava com os lugares de Roupeiro, Soutozillo, Mato e Arinho. Só posteriormente, resultante de partes destes lugares e por força do crescimento demográfico e ocupação de terrenos, viriam a ser firmados os lugares de Painçais, Fofinho, Fundevila e Agrelo, para além do lugar de Roupeiro passar a chamar-se de Igreja. Sabariz era, ainda nessa altura, couto do Convento de Santo André de Rendufe e pertencia à comarca de Viana pelo secular, e à comarca de Braga pelo eclesiástico. Na freguesia de S. Paio de Pico de Regalados ficava situada a Câmara e o 'juiz ordinário'. Não havia serviço de correio em todo o concelho, pelo que a população local tinha de ir a Braga. Já em 1758, os limites de Sabariz confrontavam com Lanhas, o monte de S. Geraldo, Fiscal, o rio Homem, o ribeiro do Tojal e Vila Verde. A freguesia era servida por uma estrada principal que ligava a Braga, por parte do trajecto actualmente ocupado pela EM que atravessa os lugares de Agrelo e Fundevila, superando o ribeiro do Tojal por uma ponte romana (actualmente em alcatrão e com formato românico esbatido) que tinha "seis braças de comprido e 10 palmos de largura".

Aquela que é hoje a Estrada Nacional 308 não passava de um caminho de servidão, apenas para pessoas e ligando Geme a Sabariz, de tal forma que a ponte situada no Lugar de Arinho tinha apenas "20 palmos de comprido e dois palmos de largura (que era a largura de uma pedra)". Segundo os documentos históricos, na freguesia de Sabariz produzia-se milho grosso, milho branco, centeio, feijão e painço (este produto está na origem do actual Lugar de Painçais). Havia quatro moinhos (dos quais apenas restam dois, havendo ainda ruínas de um terceiro) e um lagar de azeite (na Quinta de Fundevila). Por influência do convento de Rendufe – com uma presença económica de natureza fundiária esmagadora – destacavam-se igualmente as oliveiras e a produção de vinho (esta era chamada a região dos vinhos azedos). No Século XVIII, o rio Homem era encarado como muito perigoso e de grande caudal (situação profundamente alterada depois da construção da barragem de Vilarinho da Furna, já no século XX).

O ribeiro do Tojal (a que chamavam o Rio de Sabariz) era o mais utilizado pela população, razão pela qual era no seu curso que se encontravam os quatro moinhos e o lagar de azeite. Em ambos os rios, podia pescar-se livremente, sendo famosos pela abundância de trutas e também vogas e escalos. As terras à sua volta eram as mais frutíferas. A actual disposição social e administrativa da freguesia começou a ganhar os seus contornos a partir das crises agrícolas do final do século XVIII (1770) e consequente recessão económica que se prolongou pelo século XIX, já depois das invasões francesas. Em 1822, Sabariz mantinha-se como uma das 21 freguesias do concelho de Regalados e pertencia à comarca de Regalados.

Em 1826, segundo o mapa territorial tirado das instruções a propósito de legislação com vista às Cortes Gerais (in Tomo I de Maria Namorado), Sabariz tinha 46 fogos, pelo que se presume que teria já cerca de 200 habitantes. Depois da Revolução Francesa, a emancipação do domínio clerical efectivou-se com as reformas administrativas do território nacional lançadas por Mouzinho da Silveira (1832). O decreto real de 2 de Dezembro de 1840 autorizou "o governo da Nação a proceder, no Continente do Reino, Ilhas Adjacentes e Províncias Ultramarinas, à divisão, união e supressão das paróquias para todos os efeitos civis e judiciários".

Neste início do século XIX, apesar de reformulações sucessivas dos concelhos e dos seus limites, Sabariz manteve-se no concelho de Regalados. Só o decreto de 24 de Outubro de 1855 colocou finalmente Sabariz no concelho de Vila Verde, culminando um processo iniciado dois anos antes e que levou à extinção e anexação dos concelhos de Regalados, Vila Chã e Larim, Prado Aboim da Nóbrega e Portela de Penela.

Mário Malheiro Fernandes ----------- (*1) Da Era Romana -in Boletim Cultural de Vila Verde, publicado em 2005, em trabalho de Manuela Martins, da Universidade do Minho, a propósito do "Património arqueológico e primitiva ocupação do território do concelho de Vila Verde".